sábado, 26 de abril de 2014

Eu e as questões de gatos

Apetece-me falar com alguém. Resta-me este meu cantinho, visto que a noite já se arrastou por algum tempo, deixando poucas almas acordadas. A minha cabeça parece não querer descansar, apesar do cansaço que sente. Continua a divagar no escuro da noite, acendendo uma luzinha sempre que tento fechar os olhos e dormir por um pouco.
Não sei ao certo o que me mantém desperta. Na rua não se ouve um único ruído, apenas a sinfonia que os pequenos bichinhos nocturnos compõem todas as noites, para quem queira ou precise de ouvir o tranquilo som da tal Mãe Natureza. A fazer-me companhia está a pequena Mia, gata de poucas amizades, mas de enorme ternura para quem já conhece bem. Esta já dorme, como sempre numa posição um tanto ou quanto engraçada: barriga para cima e patas a tapar a cara, como se se escondesse de alguma coisa. A televisão está ligada, não por despertar muito interesse o que nela está a dar, mas por mera companhia.
As palavras parecem criar uma barafunda na minha cabeça. Todas querem sair ao mesmo tempo, ocupar lugar numa destas frases, ganhar forma e sentido. A barafunda é tal, que chega a surgir a necessidade de dizer "Basta!", com o ar mais autoritário possível e com toda a determinação do mundo. Infelizmente a minha cabeça não cede a tais intimidações, decide por ela própria continuar a vaguear por entre a multidão de palavras que vão surgindo de todo o lado. É quase impossível deter estes pensamentos que me mantêm acordada até longas horas da noite.
A gata mudou de posição, agora está enroscada sobre si mesma, parece uma pequena bola de pelo. Continua a dormir, sorte a dela. Observo o seu ar tão sereno. Parece não ter nada com que se preocupar, o que na realidade é verdade, visto que a sua bela vida de gata lhe permite ter apenas duas grandes preocupações (se é que lhes podemos chamar de preocupações): comer e dormir. Bela vida. Não é que me queixe da minha, que por acaso até vai bem encaminhada, para alguém que tem uns meros dezassete anos de existência, mais propriamente dezassete anos, quatro meses e quatro dias, se é que isso importa. O que queria dizer ao intitular de bela a vida de gato, é que por vezes essa parece uma vida bastante mais fácil, sem problemas, sem preocupações realmente preocupantes, sem confusões... Apenas questões como "Onde vou dormir hoje?", "Será que já me deixaram comida?", "Será que consigo escapar-me de casa sem que ninguém dê por isso?", enfim, questões de gatos. A vida seria bem mais fácil se uma vez por outra fosse possível esquecer os problemas e pensar apenas em interrogações dos felinos.
Deixando-me de disparates e de desejos fisicamente impossíveis, acho que vou tentar fechar os olhos e apagar esta minha mente durante umas horas. Amanhã é outro dia, certamente atarefado para mim, visto que para vida de gata já basta uma cá em casa. Não é Mia? É pois, dorme bem aqui no sofá, eu vou até à minha cama. Boa noite.

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