sábado, 27 de outubro de 2012

Viagens I

Naquele dia cheguei mais tarde à estação de comboios, apressada, corri para o comboio que já se encontrava no ponto de partida, quase a iniciar o seu trajecto. Ao entrar senti o ar saturado que entrava numa das portas e saía pela oposta. Procurei um lugar vazio, longe da confusão habitual, longe de gente conhecida, missão quase impossível num espaço tão pequeno. Depois de me sentar confortavelmente no meu lugar, junto de uma das janelas, pousei a mochila sobre as pernas e retirei o mp3 tal como costumava fazer. 
O comboio partiu, não tardava a chegar à primeira paragem devido à velocidade que mantinha. Aguardei que o revisor se aproximasse e pedisse o bilhete que comprara à pressa, momentos antes de entrar no comboio. Naquele dia as coisas não estavam iguais, refiro-me ao meu estado de espírito. Estava triste, e muito observadora. No meu pequeno mundo, ouvindo a minha música sem ser incomodada, reparava nos rostos das pessoas que me rodeavam. Não me eram desconhecidos, porém não me suscitavam qualquer memória acerca de uma história de vida. Alguns rostos pareciam cansados, cabisbaixos e com expressões tristes, de quem leva uma vida cansativa e monótona, sem tempo para parar e reflectir sobre o que quer que seja. Outros estavam alegres, ou pelo menos pareciam, com um sorriso de orelha a orelha, conversando com amigos ou simples conhecidos, trocando histórias e acontecimentos da sua vida ou da vida dos outros, não sei... Pessoas de idade mais avançada, carregadas de sacos, alguns deles da farmácia, pois a idade já não perdoa e a saúde já não está a cem porcento. 
Dei por mim quase no meu destino, uma das últimas paragens do comboio. Nem dei pelo tempo passar, ali sentada observando pessoas, gestos... Qualquer coisa me chamaria à atenção naquele dia, mas não sei porquê, foquei-me numa senhora, uma daquelas que referi, de idade avançada e cheia de sacos. Comecei a pensar se daqui a uns anos terei a coragem dela para enfrentar a vida assim. Entrar num comboio, viajar sozinha, falando para os meus botões, pensando no que irei fazer para o jantar daquele dia. Coisas simples da vida, às quais nem sempre damos importância.
Cheguei então ao me destino, por isso voltei a colocar o mp3 na mochila e com calma levantei-me para me dirigir à saída, onde muitas outras pessoas tentavam chegar. Desta vez, sem pressas, saí do comboio e avancei para a frente da estação. Aguardei que alguém se lembrasse de mim e me fosse buscar. Assim aconteceu, o carro chegou e com toda a calma do mundo entrei e segui caminho directamente para casa, mas isso, já é outra história, outra viagem, outro foco de luz que talvez um dia eu tenha tempo para parar e ter mais atenção aos pormenores e às simples coisas que aí se passem. Até lá, continuo a achar essa, uma simples viagem de carro, que comparada à de comboio, não tem o mínimo de interesse. 

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